Crônica – A Viagem

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Naquela tarde de sol quente e com baixa umidade de ar, ela sentia uma certa dificuldade para respirar. Talvez não fosse apenas o sol quente, pois estava no conforto do seu quarto com ar condicionado.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre – Avenida Goiás – Goiânia 

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Por Valter Aleixo

Era a sua primeira viagem ao Brasil e o motivo pelo qual tinha ido até lá a deixara muito apreensiva. Saiu do quarto e foi até o lobby do hotel e pediu ao concierge, em espanhol, pois não falava português, que lhe chamasse um táxi. O táxi a deixou na entrada do Cemitério Santana, no bairro de Campinas, na cidade de Goiânia. Do lado direito do cemitério, haviam vários vendedores de flores e velas, e do lado esquerdo, ficava o escritório administrativo daquele lugar. Ficou ali parada observando todo aquele movimento das pessoas e do tráfego caótico. Sentia-se completamente fora de seu lugar de conforto.

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Fonte foto – http://www.curtamais.com.br/goiania/quebrando-tabu-cemiterio-santana-no-setor-campinas-pode-virar-atracao-turistica

Tinha viajado milhares de milhas para chegar até ali. Algo dentro dela, mais forte do que ela a impulsionara àquele lugar, mas não sabia o que buscava e nem o que ia encontrar. Sentiu um enorme vazio por dentro e pensou em recuar e ir embora, mas havia feito uma viagem longa demais e tinha que ver aonde ele estava enterrado; precisava fechar aquele capítulo de sua vida.

Seu coração começou a bater mais forte quando saiu em direção ao escritório administrativo.

– Necesito saber donde está enterrado este señor – disse – mostrando o nome de uma pessoa num pedaço de papel para a recepcionista.

– Pois não, senhora. Vou buscá-lo no computador. Espere aqui só um momentinho, por favor.

Após alguns instantes, a recepcionista voltou e entregou-lhe o papel de volta com a informação que ela pedira.

– Esse túmulo está localizado no lado sul do cemitério. A senhora pode seguir por ali – disse-lhe – apontando com o dedo o caminho que deveria tomar.

Apesar de não ter entendido tudo o que a recepcionista disse, pôde deduzir o que ela estava explicando.

– Muchas gracias – agradeceu a senhora.

Antes de sair à procura do túmulo, voltou lá fora e comprou uma flores.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre

Aqueles túmulos e estátuas pareciam congelados no tempo. Ao lado de dizeres de saudades de familiares entalhados no cimento, flores de plástico e naturais, ressecadas pelo calor escaldante, ornamentavam aquelas sepulturas cinzentas. Cheiro de velas queimadas chegavam-le às narinas, como incenso de mortuário. Ali jaziam pessoas que haviam morrido há várias décadas e, alguns, há mais de séculos. As estátuas pareciam seguí-la com seus olhos inertes. Sentiu calafrios na espinha e um medo momentâneo invadiu-se dela, deixando-a aterrorizada. Voltou a pensar em recuar, mas não conseguiu; sentia compelida em seguir adiante. Acelerou os passos. Buscava a sepultura da quadra 35, lote 22.

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           Fontte foto – https://www.folhaz.com.br/noticias/cemiterio-santana-74-anos-de-historia/ –            O Cemitério Santana, como é conhecido, situado no Setor dos Funcionários, registrou seu primeiro sepultamento em 9 de dezembro de 1940

Após algum tempo caminhando por aqueles caminhos estreitos, ela, finalmente, encontrou a sepultura. Era simples: um grande retângulo feito de cimento, com uma pequena placa, quase toda coberta de musgos, indicando a data de nascimento e morte do residente daquele lugar. No centro da pequena cruz de madeira, que ficava na cabeça do túmulo, tinha uma foto colorida e desbotada de um homem sorrindo. Ela se aproxima um pouco mais, retira seus grandes óculos escuros e, apesar de aparentar muito mais jovem naquela foto, ela reconhece aquele rosto. Sente as pernas enfraquecerem e o mundo ao seu redor torna-se pequeno demais e ela cai sentada no túmulo. Lágrimas, desenfreadas, brotam dos seus olhos incrédulos, e uma enorme tristeza invade a sua alma. Ali, naquele lugar estranho, jaz o amor de sua vida: Alex Pereira, nascido no dia vinte e quatro de julho de mil e novecentos e sessenta e falecido no dia trinta de outubro de dois mil e quarenta.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre

Fica olhando aquela foto e, de repente, parece voltar ao tempo. Lembra-se de quando o encontrou pela primeira vez; de como veio a saber do amor secreto dele por ela e pelo amor que ela mesma havia despertado por ele. Lembra-se, também, da última vez que saíram para jantar, de como os seus olhos brilhavam a cada exemplo que ele dava como prova daquele seu amor enclausurado no peito por ela. Limitou-se apenas a ouvi-lo. Jamais lhe dissera que o amava também. Seu coração não conseguia compartilhá-lo com outra mulher. Era casado e ela jamais poderia interferir na vida de um casal.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre

Durante muitos anos tinha tentado esquecê-lo, mas seu coração relutava. Estava agora com sessenta e nove anos. Vivera com aquele fantasma durante todo aquele tempo.

Depois que o conheceu, teve vários relacionamentos amorosos, mas nunca se casara, tampouco tivera filhos.

Veio a saber sobre sua morte quando percebeu que, aquele sentimento de amor que nunca desaparece, despertou dentro dela a necessidade de saber aonde ele estava e como era a sua vida. Procurou-o pela Internet e, para a sua grande decepção e horror, descobriu que havia morrido há dez anos atrás e que seu corpo havia sido trasladado para o Brasil, para ser enterrado em sua terra natal. Descobriu, também, que ele havia se divorciado e que nunca se casara outra vez.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre – Panorama da área urbana de Goiânia

Lamentou ter passado todos aqueles anos em silêncio. Sentiu que a vida lhe havia roubado a razão do seu coração. Mas, agora, era tarde demais: naquele túmulo tácito e indiferente, jaziam os restos mortais de seu amado. Ele jamais iria saber do seu amor; jamais iria saber o quanto ela padecera por nutrir aquele sentimento por ele durante todos aqueles anos. Mesmo assim, teve uma enorme vontade de dizer-lhe, em voz alta, que sempre o amara também, que a distância jamais o tirou de seu pensamento e do seu coração, mas sentiu que sua voz cairia no vazio. Era melhor apenas guardar na memória, para o resto de sua vida, aquela imagem dele jovem sorrindo.

Uma leve brisa soprou naquele momento e ela pareceu sentir a presença dele. Olhou para o céu e viu alguns pássaros voando bem alto, como se estivessem indo para uma nova vida, longe daquele lugar.

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Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Enxugou as lágrimas, colocou as flores no túmulo ao lado do nome dele, pôs os grandes óculo escuros e levantou-se.

Saiu caminhando em direção à entrada do cemitério. Seu voo saía às 18:00 hr.

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Fonte foto – (Reprodução/Google Earth) – https://www.emaisgoias.com.br/exclusivo-prefeitura-deve-retomar-projeto-de-revitalizacao-do-cemiterio-santana/

Jornal Vida Brasil Texas ASA-do-AVIAO-2 Crônica - A Viagem Crônicas Destaques    Fonte foto – Wikipédia, a enciclopédia livre

Por Valter Aleixo

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